CBIOS NO CAMINHO PARA GLASGOW

29/01/2021
CBIOS NO CAMINHO PARA GLASGOW

No final de 2021 será realizada a próxima Conferência do Clima, a CoP-26, em Glasgow na Escócia. Essas conferências tem implicações econômicas cada vez mais amplas e a ambição dos países de reforçarem seus compromissos com o Acordo de Paris tem promovido uma corrida tecnológica e estímulos à reestruturação de indústrias e economias ao redor do mundo.

A Europa lançou seu plano de infraestrutura verde no ano passado e os Estados Unidos virão com novidades. China e Japão já anunciaram objetivos de carbono zero no meado do século. O hidrogênio verde, sussurrado há 2 anos, hoje está nas prioridades de várias potências. A indústria do fracking estaria buscando meios de extrair calor abrindo veios na crosta terrestre, dando acesso a uma fonte de energia maior que todo o petróleo do planeta. Novos softwares poderão transformar a transmissão e uso da energia, mesmo em países ainda dependentes do carvão, como a Índia.

O mercado de Cbios pode ser um laboratório para a discussão internacional sobre créditos de carbono

Esse sopro na esteira da covid-19 lembra o otimismo do pós guerra, o qual junto com a agenda social que abraçou e inovação que trouxe, criou um mundo de mais liberdade, riqueza, conforto e... até paz, apesar dos terríveis conflitos locais que ainda existem.

E o Brasil? Quais os nossos sonhos e ambições, para onde estamos direcionando nossos esforços? O que a nova geração deve procurar? Essas são questões ainda em aberto, que, tenho convicção, encontrarão suas respostas. Enquanto não chegamos lá, a boa notícia é que o Brasil pode ganhar muito nessa era que começa, caso aproveitemos nossas vantagens e entendamos o que está sendo negociado.

Já há pouca dúvida de que as fontes de energia eólica e solar são as mais competitivas para a expansão da nossa geração elétrica, com potencial enorme no Nordeste e também no litoral Sudeste (eólica off-shore) e em Minas (solar). Para elas, não tem faltado financiamento ou interesse de investidores nacionais e estrangeiros trazendo novas tecnologias. Agora, é preciso dar sinais corretos para evitar ineficiências e a eletricidade no Brasil poder se tornar mais barata.

Nossos combustíveis fósseis também terão espaço. A exportação de petróleo pode ajudar vários países a reduzir sua dependência do carvão. Com o gás natural, podemos gerar eletricidade off-shore a carbono zero, mediante a reinjeção do CO2 nos poços de petróleo. Por um tempo, o gás pode ajudar os caminhoneiros e baixar as importações de diesel.

Mas, principalmente, o Brasil é pioneiro nos biocombustíveis. De primeira ou segunda geração, o etanol pode crescer enquanto não eletrificamos os veículos leves, especialmente se a eficiência dos motores flex melhorar. Sebo, soja, dendê, ou alternativas hidrogenadas, podem deslocar o diesel e o querosene de aviação. O recente programa Renovabio, com os Cbios, é um passo nessa direção, que pode abrir novos horizontes.

Os Cbios são certificados emitidos pelos produtores de biocombustíveis e cada um corresponde a uma tonelada de gás carbônico evitada, quando se substitui um combustível fóssil por um biocombustível. O cálculo dessa redução é muito cuidadoso, incluindo todas as emissões que podem ter ocorrido na produção do biocombustível, incentivando assim os processos produtivos com menor pegada de carbono.

O mercado de Cbios é único e talvez mereça mais atenção dos economistas, pois ele pode chegar perto de US$ 1 bilhão nos próximos anos e também precisa dar os sinais certos para a economia.

A demanda por Cbios é predeterminada pelo governo, que estabelece a quantidade total que as distribuidoras de combustível terão que comprar a cada ano. Ela deve ultrapassar 80 milhões de Cbios em 2030 e tenta refletir metas de redução de emissões de CO2 até lá, ainda que os detalhes da metodologia usada para seu cálculo não sejam de amplo conhecimento público. A proporção a ser comprada por cada distribuidora é mais clara, dependendo do volume de combustível fóssil vendido no ano anterior.

Estando a quantidade global a ser comprada fixada e a disponibilidade de Cbios dependente da expansão da produção de biocombustíveis, seu preço pode trazer surpresas. Se a oferta fosse elástica e totalmente competitiva, esse preço seria em princípio determinado como na ordem de despacho do setor elétrico - ou seja pelo produtor marginal, aquele mais caro até se alcançar o valor global da demanda. Faltando Cbios, seu preço seria limitado pelo valor da multa que a distribuidora que não completa a sua cota tem que pagar (e.g., US$10/Cbio faltante).

Na vida real, prováveis assimetrias de informação na indústria, a forma de negociação dos Cbios na B3, a influência do preço do açúcar na sua oferta, e a possibilidade de estocá-los, tornam a formação do seu preço relativamente complexa e volátil, o que tem atraído o sistema financeiro.

A entrada de produtores mais eficientes é a premissa do programa. Se o custo marginal de expansão da oferta de biocombustíveis ultrapassar o custo coberto pelo teto do Cbio, ou houver restrições à essa entrada, talvez por falta de financiamento, há o risco do mecanismo se tornar meramente uma renda para os produtores existentes. A internacionalização do Cbio poderia diminuir esse risco, também ajudando a desenvolver novos mercados de créditos de carbono.

O etanol que substitui a gasolina no Brasil contribui para a redução de emissões globais. Uma empresa no exterior que comprasse um Cbio poderia compensar suas emissões lá fora, desde que o instrumento fosse reconhecido naquela jurisdição. Ao invés de exportar etanol, o Brasil exportaria a redução de CO2 aqui, representada pelo Cbio. Para isso, é preciso continuar aperfeiçoando a certificação da produção de biocombustíveis e as regras do mercado de Cbios, alinhando claramente, por exemplo, as metas de redução de emissões de CO2 no transporte, implícitas no volume de compra obrigatória de Cbios, e a medição de sua realização às regras internacionais de crédito de carbono.

Vivemos tempos excitantes. Sem negar os problemas imediatos, há muito o que criar. O mercado de Cbios pode ajudar a reduzir emissões e ser um laboratório para a discussão internacional sobre créditos de carbono, que também é parte da CoP-26.

 Fonte: Valor Econômico - Grupo IDEA