Energia limpa: fator-chave para evitar caos climático, indica estudo

14/05/2019
Energia limpa: fator-chave para evitar caos climático, indica estudo

As emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao uso de energia têm de diminuir em 70% até 2050 para que as mudanças climáticas fiquem limitadas a acréscimos na temperatura média global “significativamente abaixo” de dois graus celsius em comparação com os níveis pré-industriais. O alerta é da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês), que acaba de publicar estudo apontando que uma transição de larga escala para fontes renováveis de energia elétrica poderia promover 60% dessa redução de emissões.  

O Brasil, que tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, tem totais condições de permanecer na vanguarda desse processo com a expansão das fontes renováveis em sua matriz, na avaliação de Camila Ramos, diretora-geral da Clean Energy Latin America (Cela). “O país não pode se acomodar na posição de que já tem uma matriz elétrica limpa e renovável”, afirma a especialista, acrescentando que, diante do aumento da competitividade dessas fontes, essa expansão pode ser feita sem impactar os custos para os consumidores.

Os segmentos de fontes renováveis mostram que estão preparados para contribuir nesse processo. No caso da energia eólica, a perspectiva é ampliar a participação da fonte na matriz elétrica brasileira dos atuais 14,8 GW para 19,4 GW em 2023. “O sucesso da eólica no Brasil é de fato uma contribuição real do país para a transição energética, especialmente considerando que no país a eólica foi se desenvolvendo para se tornar uma fonte competitiva”, afirma a presidente-executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum. O bom desempenho da fonte também é explicado em grande parte pela qualidade de nossos ventos: enquanto o fator de capacidade médio das usinas eólicas no mundo é de 25%, por aqui fica em 42%, permitindo um rendimento muito superior das turbinas.  

Elbia também é otimista com relação à intermitência, um dos principais desafios para a integração das fontes eólica e solar nos sistemas elétricos em todo o mundo. “A evolução técnica hoje dá cada vez mais segurança para fontes variáveis, tornando as previsões cada vez mais próximas do que se efetiva e permitindo um planejamento seguro”, avalia.  

Biomassa pode contribuir muito mais  

Com 11,4 GW de capacidade instalada atualmente, a biomassa de cana-de-açúcar poderia ampliar significativamente sua contribuição na geração de eletricidade no país. “Apenas no setor sucroenergético, se houvesse o aproveitamento pleno da biomassa atualmente presente nos canaviais, a bioeletricidade teria potencial técnico para chegar a 146 mil GWh, mais de 5 vezes o volume ofertado em 2018 pela fonte biomassa em geral, o que representaria atender mais de 30% do consumo de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN)”, afirma o gerente de Bioeletricidade da União da Agroindústria Canavieira (Unica), Zilmar de Souza.  

Para tanto, o especialista defende a adoção de uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade, com diretrizes claras e de continuidade, incluindo esforços para a contratação regular e crescente de energia da fonte, equacionamento da atual judicialização nas liquidações financeiras no mercado de curto prazo e aprimoramento da metodologia de revisão da Garantia Física de Energia (GFE) para usinas da fonte. “Aproveitamentos menos de 15% do potencial da bioeletricidade e, nos últimos anos, a expansão dessa fonte na matriz de geração ficou bastante tímida vis-a-vis seu potencial”, afirma.  

Geração térmica em alta  

Camila, da Cela, vê como preocupação a tendência de médio prazo indicada pelo Plano Decenal de Energia Elétrica 2027, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de aumento da instalação de fontes térmicas na matriz elétrica brasileira. O cenário de referência traçado pelo documento indica que o montante de usinas para geração de eletricidade a gás natural deve praticamente dobrar até meados da próxima década, passando de 12,5 GW para 23 GW. Ela não considera esse movimento necessário: “As fontes renováveis são complementares entre si: o Brasil é muito rico em recursos naturais, tem hidrelétricas que são baterias naturais, eólica, solar e biomassa”.  

Isso é possível pelo fato de que, por exemplo, as usinas de biomassa e eólicas concentram sua produção no período seco da maior parte do país, quando há redução de geração hidrelétrica, e que a produção eólica se concentra ao longo da noite, compensando a geração solar. Elbia, da Abeeólica, vai na mesma linha da diversificação: “Nossa matriz elétrica tem a admirável qualidade de ser diversificada e assim deve continuar. Cada fonte tem seus méritos e precisamos de todas, especialmente se considerarmos que a expansão da matriz deve se dar majoritariamente por fontes renováveis”, afirma.

 

Fonte: Site Energia que fala com você | Ana Tissoni