Entrevista com Luis Carlos Jorge - Presidente do CEISE Br

05/02/2019
Foto: Mailson Pignata
Foto: Mailson Pignata

A primeira percepção que a conversa com o novo presidente do CEISE Br dá é de que ele está focado em preparar a casa. Existe um clima de ansiedade no ar por parte das indústrias que ele representa, porém positivo, quase de espera, paciente, e principalmente organizado.

Parece que depois de tanto apanhar, foi criada uma crosta que dá resistência para as empresas, que as manterão de pé, até que finalmente venha uma era de prosperidade, a qual o empresário demonstra estar bastante animado a partir da “Era RenovaBio”, com início previsto em 2020.

E quando chegar o momento de acelerar as turbinas, Jorge espera que as empresas estejam prontas para atender à demanda e, principalmente, ganhar sustentabilidade nessa onda, para que futuras depressões profundas impactem menos seus negócios.
Para falar sobre isso e as ações futuras do CEISE Br, Jorge recebeu a Revista Canavieiros para a entrevista abaixo. Confira:


Revista Canavieiros: Quem é Luis Carlos Jorge?
Luis Carlos Jorge: Sou natural de Sertãozinho, formado em engenharia mecânica pela Unesp, campus Ilha Solteira e minha família é fundadora da empresa Equilíbrio Balanceamento Industriais, iniciada em 1997.
Eu trabalho nela desde janeiro de 2008 e atualmente ocupo o cargo de diretor comercial, estou na diretoria desde 2013. Além da graduação, tenho especialização em ventilação industrial, uma das áreas de atendimento da empresa.
Atualmente também ocupo o cargo de vice-diretor da Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Sertãozinho e faço parte do Depar (Departamento de Ação Regional) do Sesi (Serviço Social da Indústria) e Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Revista Canavieiros: Dentro desses quase dez anos de atuação na empresa, quais são as suas principais referências profissionais?
Jorge: Eu carrego como primeira e principal referência a minha família, que foi quem fundou o negócio e está aí sobrevivendo de maneira forte no mercado.
Também tenho como parâmetro outras empresas que também adotam a gestão familiar em nossa região, como o Grupo Toniello e a Usina Bazan.

Revista Canavieiros: Como o senhor enxerga que deva ser o comportamento do empresariado perante o governo que se iniciou agora?
Jorge: O empresário espera que o governo atenda à demanda que já está com ele, que inclusive foi estudada e está em análise, pois essa pauta é que vai amparar a nossa realidade.
Todos sabem que a indústria como um todo vive um cenário de forte crise econômica, não é especificamente de um setor da economia. Eu vejo um otimismo de mercado que vem com a troca de governo.
É lógico que todo esse otimismo precisa ser concretizado, porém é preciso dar um tempo para os projetos serem implementados. As primeiras ações da equipe econômica já acenam que as novidades virão, existe um plano de governo bem editado com reformas essenciais para a retomada da dinâmica na economia nacional.

Revista Canavieiros: Se o Paulo Guedes (ministro da Economia) ligar e perguntar qual a primeira demanda do CEISE Br? O que o senhor responderia?
Jorge: Que ele acelere o quanto antes o início do RenovaBio, que o programa saia do papel e já entre em prática.

Revista Canavieiros: E se ele ligar para o empresário?
Jorge: Aí será para flexibilizar as linhas de crédito para que elas se tornem alcançáveis, pois as empresas precisam de investimentos para retomar a operação de crescimento, o que criará um novo ciclo de pujança.

Revista Canavieiros: Voltando ao assunto do RenovaBio, qual a sua percepção sobre o seu processo de implementação?
Jorge: Será necessário muito investimento. Vejo que o processo de implementação está andando bem, inclusive com a primeira certificadora já escolhida. Agora será a parte de estímulo à vinda de crédito, porque é um programa pautado na valorização da eficiência de produção tanto industrial como agrícola e para isso será necessário um aporte de recursos considerável.
Falo isso em decorrência das metas já divulgadas, de quase dobrar a produção de etanol, aumentando somente em até 20% a quantidade de área a ser plantada, o que demandará um crescimento importante na eficiência. Outro ponto que é preciso considerar está na dificuldade pela qual as empresas passam, sem capital de giro, sem recursos para se modernizarem.
Diante desse cenário avalio que não é possível, embora gostaria, acelerarmos mais o início do RenovaBio, pois essa forma mais lenta garante que seja feita uma base forte do projeto para ele ser sólido e duradouro.

Revista Canavieiros: Pensando em crescimento e investimento, existe um cenário causado pela última crise onde muitas usinas estão com seus parques industriais defasados, carentes de manutenção. Imaginando um momento de retomada, com a volta do crédito, aonde o senhor imagina que deverá ser aportada a maior quantidade de recursos? Em reformas ou greenfields?
Jorge: De imediato acredito que será um investimento nas usinas já existentes, as greenfields serão necessárias para atender a demanda, em uma segunda etapa. Isso porque as usinas estão com sua capacidade de produção ociosa, porém para elas atingirem sua plena capacidade irão precisar, além das reformas urgentes, ter um plano de correta manutenção e a substituição de máquinas e equipamentos que se encontram defasados sob o ponto de vista tecnológico.

Revista Canavieiros: Qual será o papel do CEISE Br nesse momento de possível retomada?
Jorge: Nós estamos trabalhando, eu e toda a diretoria, formada por 18 pessoas, focados no sentido de levar informações para os associados através da participação em vários comitês e grupos técnicos, que discutem todas as diretrizes do projeto. Acreditamos que nesse momento as empresas precisam estar atualizadas com os rumos que o RenovaBio está tomando, para irem se preparando para o seu início.

Revista Canavieiros: Qual a percepção do senhor sobre a velocidade de implementação do programa?
Jorge: É um momento de preparação necessário, existem várias lacunas que levam um tempo para terem uma definição porque a natureza do projeto envolve variados segmentos. Diante disso é extremamente necessário que ele seja constituído numa base sólida, para ter um crescimento sustentável, ao contrário do grande boom do setor que houve no início do século e que mais tarde se revelou como uma bolha.

Revista Canavieiros: O senhor enxerga que a crise do setor metal-mecânico, que atinge a área de abrangência do CEISE Br já saiu do fundo do poço?
Jorge: Nunca sabemos a profundidade do fundo do poço, tivemos aí inúmeras crises diante da história, mas sem dúvida nenhuma essa última que passou foi a pior, não somente do setor metal-mecânico, mas do país como um todo.
O período ainda é muito difícil, muitas empresas apresentam problemas sérios de endividamento e falta de capital de giro. Assim como nas usinas, as empresas também deixaram de investir em seu parque fabril em decorrência da falta de capital para investimentos.
Tivemos inúmeras empresas que fecharam e um desemprego altíssimo. Eu vejo que quem conseguiu ficar de pé teve que se adequar diante de uma realidade para conseguir sobreviver.
A briga até hoje é pesada, num ambiente inóspito, que gera várias sequelas no negócio. Sendo assim, é necessário gerar condições mais tranquilas de trabalho, dar um pouco de conforto. Esperamos que essa calmaria apareça nos próximos dois ou três anos, aí não pensaremos mais em sobreviver, mas teremos paz para pescar e crescer.

Revista Canavieiros: O senhor acredita que com a retomada as empresas voltarão a ter o mesmo vigor em contratação como na última fase de crescimento do setor no início do século?
Jorge: Eu vejo que a partir do momento que é estabelecida uma meta, a qual terá que praticamente dobrar a capacidade de produção de etanol que temos hoje em um médio espaço de tempo, automaticamente as empresas deverão investir em tecnologia e terão mais demanda de serviço.
Com isso, se você aumenta a demanda, aumenta também o número de vagas disponíveis, agora comparar com o começo do século, principalmente a curto prazo, eu não enxergo que será igual.
Vejo que vai melhorar, as vagas vão aparecer, porém num valor mais real, porque aquele foi um momento totalmente fora da realidade, um movimento que ninguém consegue teorizar o que houve. Foi uma loucura, um crescimento exponencial que depois se mostrou que não foi bom nem para o empresário, nem para a população. Porém, nos serviu como um grande aprendizado, principalmente em nos prepararmos para aproveitar os ciclos virtuosos para evoluirmos gradativamente.

Revista Canavieiros: Ainda sobre esse tema, diante da quantidade de empresas que acabaram fechando perante a crise, o senhor acredita que possa haver um movimento parecido com o que originou a disseminação do parque industrial que Sertãozinho tem hoje, a partir da decadência da Zanini?
Jorge: Sempre é bom para o mercado ter novas empresas, mas um crescimento igual ao da época eu acho difícil porque o parque industrial está com sua capacidade de produção ociosa, ou seja, em primeiro lugar o mercado precisa demandar uma quantidade de serviços que coloca boa parte do que está parado hoje para funcionar.
Não é lógico você pensar em abrir uma nova empresa sendo que há várias que fazem o mesmo serviço e prontas para voltar a atividade.

Revista Canavieiros: Como o CEISE Br vê a questão das startups para a indústria?
Jorge: Tudo que é inovação é muito bem-vindo, e a base das startups é isso. O interessante é que as empresas já estão enxergando atores desse mercado como parceiros, inclusive algumas já estão sendo adquiridas ou incorporadas por grandes grupos.
Com relação ao Ceise Br, nós temos um projeto que está em andamento para otimizar e apoiar a criação das startups, onde através de parcerias com entidades educacionais, faremos o intercâmbio entre elas e o setor empresarial para ajudar no alinhamento dos dois lados do negócio.

Revista Canavieiros: Qual é a sua interpretação da frase: “Precisamos de um país de fazedores”?
Jorge: Eu acho que nós sempre tivemos fazedores no país, mas agora acontecerá uma retomada da mentalidade do fazer, o que será bom para todo mundo, pois teremos uma população que estará motivada em trabalhar para o bem.
Antes dessa crise, muita gente tinha como objetivo de vida se tornar um empresário. Com o passar do tempo essa vontade foi desaparecendo, as pessoas passaram a ter medo de empreender.
Eu acredito que com a volta de um ambiente de negócios positivo, voltará a cultura do empreender, que é gente que faz, que enfrenta dificuldade, que supera na maioria das vezes e gera riqueza - o que fará com que o país cresça.

 

 Por: Marino Guerra | Revista Canavieiros