Financiamento de estocagem pode ser última esperança das produtoras de etanol

21/05/2020
Haroldo Torres, do Pecege, acredita que sem a warrantagem aumenta o endividamento e até mesmo abre possibilidade para pedidos de recuperação judicial
Haroldo Torres, do Pecege, acredita que sem a warrantagem aumenta o endividamento e até mesmo abre possibilidade para pedidos de recuperação judicial

A resposta sobre as ações que o setor sucroenergético pleiteava como o reajuste da Cide e a isenção do Pis/Cofins, foi dada pelo Governo: não vão sair. E diante disso, a esperança do segmento é aguardar uma boa linha para financiamento da estocagem do etanol. A decisão pode dar um pouco mais de fôlego para que algumas companhias continuem sobrevivendo depois de tantos anos de crise.

Os preços de venda do etanol hidratado pelas usinas e destilarias, pela quarta semana consecutiva, estão abaixo de R$ 1,40/litro no Estado de São Paulo. Isso significa, segundo Ricardo Pinto, CEO da RPA Consultoria, que a cada litro produzido e vendido, as usinas e destilarias têm um prejuízo de pelo menos 10%.

“Com os preços neste patamar, os prejuízos estão sendo realizados e, em algum momento, está conta terá de ser paga pelas usinas”, adiciona.

Hoje, muitas usinas pagam esta conta mudando o mix para o açúcar, que agora projeta lucro de 18% e 20%, principalmente diante do dólar super valorizado.

“Outras tantas buscam a receita adicional da cogeração, mas o PLD (preço de liquidação das diferenças) vem ficando abaixo de R$ 90/MWh nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Logo, só os contratos de longo prazo remuneram devidamente a cogeração”, destaca Ricardo Pinto.

Fechar no lucro ao final desta safra será um desafio gigantesco, mas segundo o consultor, a warrantagem possibilitará que parte da produção de etanol seja guardada para venda na entressafra, quando se espera que os preços estejam mais altos.

Haroldo Torres, economista e gestor de Projetos do Pecege, diz que a linha de financiamento, liderado pelo BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) juntamente com um consórcio de bancos, tende a sair em breve.

“Essa linha de crédito não está sendo desenvolvida só para o setor sucroenergético, deve ser estruturada com vistas a atender outros setores como o de aviação, combustíveis de forma geral. Desta forma, essa é uma linha que eu acredito que deva sair, é uma medida que tem tudo para caminhar na forma de ser liberado, no entanto, de nada adianta sair no final da safra canavieira”, observa Torres.

Aumento de endividamento e RJ

Apesar da expectativa de sair a warrantagem, é preciso vislumbrar todos os cenários possíveis. Segundo Torres, se esta ação não sair, a usina ou destilaria fica sem caixa, sendo obrigado a estocar o seu ativo biológico, ou seja, bisar cana.

Além disso, pode ser que haja aumento do endividamento de muitas usinas, afinal, como já vem acontecendo, algumas unidades estão vendendo o etanol, mas não em volume suficiente – já que as vendas diminuíram 34% no mês de abril – e a um preço que não cobre seus custos de produção. Isso poderá causar aumento do endividamento, isso se essas usinas conseguirem crédito.

“É importante dizer que os próprios credores começam a olhar o setor como muito mais arriscado e com o nível de raiting menor. Portanto, o aumento de endividamento ou eventualmente até pedidos de recuperação judicial ou mesmo default, ou seja, unidades poderão ter que pedir a prorrogação dos pagamentos de fornecedores e de todos os stakeholders da cadeia, poderão ocorrer caso não se consiga acesso a linhas de financiamento”, afirma o Gestor de Projetos do Pecege.

 

Fonte: RPA News / Natália Cherubin