Otimismo prudente da indústria

19/12/2018
Otimismo prudente da indústria

Ele é condicionado ao desempenho do novo governo na condução de ajustes e reformas

A estrela da economia brasileira no próximo ano será novamente o setor industrial, com crescimento estimado de 3%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Será um retorno à frente do palco depois de longos anos em papel secundário. Pela primeira vez desde 2011, sua atividade crescerá mais que o Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com as novas projeções. O otimismo em relação a 2019 contrasta com a frustração diante dos números medíocres de 2018, no recém-divulgado informe conjuntural do quarto trimestre. O informe contém o mais completo e mais articulado balanço econômico do ano publicado até agora e um amplo exame das perspectivas para o próximo ano, o primeiro da futura administração. O otimismo é obviamente condicionado ao desempenho do novo governo na condução de ajustes e reformas indispensáveis à recuperação do País depois da longa estagnação.

O governo do presidente Jair Bolsonaro terá a seu favor, no começo, a boa disposição de empresários e consumidores. A confiança do empresário industrial atingiu em novembro o nível mais alto em oito anos. Chegou a 63,2 pontos, bem acima da linha divisória das áreas positiva e negativa, correspondente ao valor 50. Valor praticamente igual havia sido tocado em setembro de 2010, quando o indicador ficou em 63,3 pontos. Nenhum número acima de 60 pontos foi registrado depois de março de 2011 na pesquisa mensal produzida pela CNI.

A boa disposição demonstrada logo depois da eleição é especialmente notável no final de um ano de resultados econômicos muito modestos. Em um ano os técnicos da CNI reduziram de 2,6% para 1,3% o crescimento do PIB projetado para 2018. A estimativa para a expansão do produto industrial passou de 3% para 1,3% no mesmo intervalo. O quadro se torna bem mais dramático, no entanto, quando o desempenho brasileiro desde a virada do século é confrontado com o dos países emergentes e com os números da economia global.

O PIB dos emergentes deve ser neste ano 270% maior que no ano 2000. O produto global, 169,9%. O crescimento brasileiro, nesse período, deve ter ficado em modestíssimos 112,5%. As comparações são feitas com valores em dólares e paridade de poder de compra. Apesar da recuperação iniciada em 2017, depois de dois anos de recessão, o Brasil continuou – e continua – ficando para trás na corrida do crescimento econômico. Ao enfatizar esse ponto já no começo do informe, um documento de 34 páginas, os técnicos da CNI tornam mais clara a dimensão da crise brasileira, iniciada de fato bem antes da recessão registrada na estatística oficial.

Fatores políticos são as principais explicações da frustração de 2018. Além da incerteza e dos temores associados à eleição, houve a decisão, claramente política, de criar subsídios e uma tabela de fretes mínimos para o transporte rodoviário. Mas o ponto de inflexão, segundo o informe, foi o abandono da reforma previdenciária, a partir da intervenção no Rio de Janeiro, em fevereiro. Ficou clara, então, a disposição de postergar as mudanças estruturais para depois das eleições de outubro, assinala o documento.

Se o governo se empenhar nessa agenda, as boas expectativas de hoje serão confirmadas. Se o governo decepcionar, deixando de implementar essa pauta ou postergando as ações, poderá haver “um impacto devastador na confiança dos agentes”, com “rápida deterioração dos indicadores de risco-país”, dos preços de ativos financeiros e do câmbio, com efeitos nos juros. Não se descarta, nesse quadro, uma recaída na recessão. Há previsão de riscos externos, mas os internos são os mais graves.

Se as melhores expectativas se confirmarem, o crescimento anualizado do PIB no segundo semestre poderá atingir 3%, segundo as projeções. Uma nova fase de expansão dependerá, no entanto, de reformas ambiciosas, com destaque para a criação de um sistema tributário mais propício à competitividade. Mas simplificar o sistema, advertem os autores, será diferente de buscar soluções simplistas para uma economia complexa. Essa advertência está longe de ser gratuita.

 

Fonte: Estadão